A direita avestruz (parte 2)

Apesar de se auto-proclamarem o supra-sumo do pragmatismo na hora de tudo cederem em troca de um pouco de livre mercado, a nossa direita de pragmática não tem absolutamente nada, nossos direitistas ignoram a opinião das massas e os fatos e vivem numa torre de marfim ideológica enquanto são esmagados pela esquerda na rua e nas urnas, como diria o Zé Dirceu. O maior exemplo de que a esquerda só pode ser derrotada por um discurso conservador que reafirme a defesa dos valores tradicionais que ela pretende destruir foi durante a campanha presidencial de 2010, onde José Serra foi salvo de uma humilhante derrota no primeiro turno graças a militância anti-aborto que botou o dedo na ferida. Mas tudo isso não parece sensibilizar a nossa direiteca, que acumula derrotas políticas e eleitorais e insiste nos mesmos erros, achando que todo mundo raciocina apenas a partir de cálculos e conveniências econômicas, eles medem o mundo por si mesmos, é maior evidência de sectarismo possível. Além de sectários, nossos direitistas são arrogantes, pois além de não estudarem e tacharem qualquer um que diga algo que não estão acostumados a ler na grande mídia de “paranóicos” e “teóricos da conspiração”, proclamam a irrelevância de qualquer debate cultural ou moral com pose e ar de superioridade olímpica, como se tudo soubessem a respeito do seu inimigo. Como diria Olavo de Carvalho, a impotência gera a onipotência, ele próprio é a prova viva da petulância da direita tupiniquim, tendo durante anos pregado no deserto a respeito do Foro de São Paulo, órgão máximo de articulação da esquerda latino-americana.

Não é nenhum exagero dizer que nossos liberais (e portanto, praticamente toda a nossa direita) não passam de idiotas úteis a serviço da revolução cultural gramsciana, pois podem ser facilmente feitos de idiotas pela esquerda, basta prometer-lhes uns trocados a mais ou não atacar diretamente a economia de mercado. Kátia Abreu, outrora considerada aguerrida senadora oposicionista, debandou para o PSD com algumas concessões ao agronegócio no Código Florestal e, verdade seja dita, ela só era considerada “direitista” apenas por que não gostava do MST. Eis o ponto central da fragilidade da nossa direita: a visão totalmente fragmentada do inimigo. Enquanto a esquerda age em todas as frentes possíveis, visando atingir o Ocidente em toda sua amplitude, a direita se dedica a defender interesses grupais ofendidos e assim cedendo em todas as outras frentes. O maior exemplo foi durante o bafafá que se seguiu ao PNDH3, onde o tal plano teve suas duas edições anteriores publicadas durante o governo FHC, que foi apoiado, do primeiro ao último dia, pela direita brasileira, comprada com alguns carguinhos e meia dúzia de privatizações.

Outra grande desvantagem é a diferença de horizonte entre direita e esquerda. O horizonte de um esquerdista é décadas no futuro, planejando ações que terão resultados somente após a próxima geração ser educada segundo os ditames da revolução cultural. Quem poderia imaginar que, por exemplo, a contracultura dos anos 60 fosse produzir sociedades tão disfuncionais quanto a dos países europeus hoje em dia, incapazes até mesmo de se reproduzirem (é assunto pra outro post) e resistirem a invasão islâmica que ameaça substituir a decadente civilização europeia? Enquanto isso, o horizonte da direita é, na melhor das hipóteses, a próxima eleição. No confronto entre um grupo que planeja concretizar suas ações muito além do horizonte de visão de seus adversários e outro que só pensa em sua sobrevivência imediata, não é preciso ser um gênio para concluir quem vencerá. Temos a versão política da fábula da cigarra e da formiga.

Outro problema da nossa direita é sofrer do medo de contrariar seus inimigos e o desejo de serem aprovados pelos mesmos. Nossa direita, assim como a direita “aceitável” no mundo todo, morre de medo que seu direitismo ultrapasse a barreira do aceitável pela esquerda, sentem tanto medo de se parecerem “preconceituosos” que se apressam em se parecerem tão politicamente corretos quanto o esquerdista mais próximo, nosso maior exemplo é o Reinaldo Azevedo, que na hora que a coisa aperta, não perde a chance de bancar o moderninho. Por falar em RA, a revista que ele trabalha é o retrato da miséria moral e intelectual da nossa direita, afinal, o máximo que nossos direitistas conseguem ler é a última edição da Veja, que é uma revista liberal, progressista e que sente tanto horror do conservadorismo quanto da esquerda, considerados ambos “atrasados” pela revista. É claro que não poderia deixar de mencionar aqueles liberais que querem fazer a revolução cultural antes que os comunistas o façam, com a pequena diferença de que querem faze-la através do livre mercado ao invés da ação estatal direta, uns por convicção, afinal o iluminismo também é filho da Revolução Francesa, outros por idiotice, pois acham que a revolução cultural é uma consequência fortuita de um determinismo histórico irresistível.

Nesse contexto, não vejo saída para a nossa direita que não seja descer do pedestal e começar a estudar, do contrário, continuarão a ser buchas de canhão do PSDB, ao qual aceitam de bom grado, afinal sua rejeição ao PT é apenas estética. O DEM ensaia a candidatura de Demóstenes Torres a presidência em 2014. Deixar de ser filial do PSDB é necessário, mas se continuar com esse discursinho liberal e moderninho, não vão a lugar nenhum. O anti-petismo pode até catapultar um suposto direitista a vitória eleitoral, mas um eleito nada pode contra a ação sistemática de uma militância incansável, Collor e Yeda são os maiores exemplos de que, para ter o poder, não é necessário apenas ocupar um cargo.

Comments

  1. Abigail Pereira Aranha

    25 de julho de 2012

    Agora fiquei perdida. Então direitista não é quem defende o capitalismo? E qual a diferença entre direita e simplesmente horror a mudança?

    • Avatar de Administrador Mundo Realista

      Administrador Mundo Realista

      26 de julho de 2012

      Existe direita mais liberal, direita mais conservadora, existem conservadores que são liberais em relação à economia. A direita defende sim o capitalismo. O problema é que existem muitos direitistas que pensam que só isso basta. Tem também agora o tal “capitalismo de estado”, que é um capitalismo na maioria das coisas, porém com intervenções estatatais pra tudo quanto é lado (coisa principalmente usada pela esquerda hoje).

      No final existem várias variantes. A direita não tem horror a mudanças. Na verdade isso é desculpa da esquerda. A esquerda proibe tudo, censura tudo, mas quando é de interesse da esquerda tentar ir contra moralidade, religião, família (ou mesmo, simplesmente arrumar desculpas para implantar uma censura politicamente correta), eles vem com papo de mudanças, de ser liberais e de que seus oponentes são preconceituosos, retrógrados e com horror a mudança.

      Então, o que tem que ver é que no final das contas a direita está sempre moldando seu discurso para atingir mais e mais incautos, enquanto muitos que se acham de direita, caem feito patinhos…

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